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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

23228

O amor que tantas vezes quis divino
Afasta-se deveras dos meus passos,
E quando percebendo vãos, espaços
Nas tramas que inda restam me fascino
E embora nada além deste menino
Que traz nos seus olhares, brilhos lassos,
Estendo minhas mãos procuro laços
E assim o meu futuro; determino.
Na ausência da esperança o que seria
Do mundo, simplesmente uma agonia
Viver esta utopia nos faz bem
Mas quando solitário caminheiro,
O mundo tão cruel se verdadeiro
Na busca interminável, nada vem...

23227

Quem dera por mil astros, rodeado,
Qual fora um sol imenso em dia claro,
Mas quando vejo o tempo assim nublado
O fim das esperanças eu declaro,
Quisera ter alguém sempre ao meu lado,
Porém um fato assim deveras raro
Trazendo o meu olhar tão marejado
Traduzo a cada verso o desamparo.
À parte deste mundo, solitário
Quem dera noutras eras, solidário
Porém o meu fadário não se engana.
Apenas a mortalha me acompanha
A dor que se demonstra assim tamanha
Uma alma sem descanso já profana...

23226

Aurora resplandece e entorna cores
Mudando este cenário; abençoando
O dia que nascendo irá sanando
Das almas dos poetas tantas dores...
Inútil fantasia trama flores
E o quadro permanece. O vento brando
Encontra o mundo tosco desabando
E segue por aonde ainda fores.
Escuto a tua voz, longínquo grito
Errôneo cavaleiro em disparada
Ao fim de mais um dia, outra jornada,
E o coração persiste sempre aflito
Quiçá possa encontrar um novo alento
Diverso do que trouxe o brando vento...

23225

Quisera caminhar por outras sendas
Aonde houvesse luz entre cascatas,
Adentro sem saber terríveis matas
Segredos que tampouco tu desvendas,

Nos olhos embotados, frias vendas,
Um tanto carinhosa me arrebatas;
Mas logo vil pantera tu me matas
E deixas no lugar amargas lendas.

Serenas serenatas do passado
No olvido não serão mais relembradas
As noites que pensara enluaradas

O tempo segue agora em vão, nublado.
Morrendo entre teus dentes doce fera,
A vida noutra senda regenera...

23223

A fera não se afasta e permanece
Olhando para mim, com mansidão,
Eu sei que no final devastação,
É como se defronte não houvesse
Um ser que tanta dor atroz padece
E muda vez em quando a direção,
Tentando algum alívio e solução,
Porém felina audaz não obedece.

Quem dera se de mim compadecida
Poupasse pelo menos minha vida,
Mas nada me permite imaginar
Outro final senão a morte agônica
Assim durante a vida, a mesma tônica
Atônito; não pude caminhar...

23222

Figura cambiante, transtornada
Vestida de ilusão finge pensar
Que ainda existe tempo pro luar
Não vê a morte exposta na calada.
O vento que pensara uma lufada
Terrível tempestade a se formar,
Os sonhos esquecidos nalgum bar
Durante o meu passado, madrugada.
Agora não consigo mais saber
Aonde se escondeu a estrela guia
Mortalha revestindo a poesia
Cansado de lutar e de viver.
Olhando para o espelho vejo em mim
As marcas tão profundas do meu fim...

23221

Num salto sobre mim esta pantera
Expondo suas garras, firmes dentes,
Sangrantes ilusões, cruel espera
Os dias entre as ânsias são dementes
E quando se prepara ao bote, a fera
Em ritos tão macios e envolventes
Quais fossem os carinhos das serpentes
Atocaiado monstro; o medo gera.

E ao mesmo tempo traz tal sedução
Que entregue ao seu poder fico parado.
O bote com cuidado preparado,
O corpo destroçado cai ao chão,
E as aves rapineiras; calmos gestos,
Devoram com prazer enorme os restos...

23219

Firmando a cada passo mais os pés
Não deixo me levar pelos modismos,
Tampouco me exporei aos cataclismos,
Não quero nem algemas nem galés.
Apenas não suporto tal viés
Deixando a poesia sem batismos
Nem mesmo suportando novos sismos
Soneto merecendo rapapés.

Ourives sem as gemas não produz,
Agora escuridão sonega a luz
E o que era decassílabo se esgota.
Não tenho paciência para tanto,
O esgoto traduzindo desencanto
O terno entre bermudas se amarrota...